Bota de Garrão de Potro  

Edison Acri
O Gaúcho - usos e costumes

O folclorista alemão Lehamann Nitsche, pesquisador do folclore argentino, realizou um estudo no Museu de História e Arte de Berlim, em 1908, constatando que a boto de potro ou de vaca aparecia em quase todos os povos primitivos da antiguidade.

Foi o primeiro calçado fabricado pelos nossos índios e gaúchos, por volta do século XVIII. Era comum a tropeiros, changadores, paulistas e lagunistas que tropeavam mulas para Minas Gerais.

As botas eram tiradas de vacas, burros e éguas, raramente do potro que lhes deu seu nome.

Normalmente eram feitas com o couro das pernas traseiras do animal; quando tiradas das mãos, geralmente eram usadas cortadas na ponta e no calcanhar, ficando este a descoberto.

As botas eram tiradas da seguinte maneira: faziam-se dois cortes transversais nas patas do animal morto, um na coxa, o mais alto possível, e outro pouco acima do casco. Retirava-se o couro, puxando e enrolando, de cima para baixo.

A bota de garrão foi muito usada a meio pé, isto é, aberta na ponta, deixnado os dedos de fora, o que facilitava estribar no estribo pampa. mas também foi usada fechada. Nesse caso, deixava-se na ponta uma lingueta maior de couro, que era dobrada para cima e costurada com um tento bem fino, geralmetne de couro de potrilho.

Essas botas, quando em uso, não duravam mais do que uns dois meses.

bota de garrão de potro

 

 

#######################################################################################

 

 

 

 

Traje Gaúcho - 1965 até hoje

 
Coincidindo em traços gerais com a Guerra do Paraguai surge no pampa uma peça de indumentária: os “calções bombachos”, as “calças bombachas” ou simplesmente as “bombachas”. No Uruguai, onde aparecem antes, são também chamados “calzones chinos”, porque tudo que fosse do Oriente, para os castelhanos era chinês.

Foram provavelmente os comerciantes ingleses que introduziram essas calças fofas em Montevidéu, sobras de guerras coloniais onde o inglês copiava livremente o traje dos povos conquistados. No caso a bombacha era turca, em sua origem, e não árabe ao contrário do que supôs Manoelito de Ornellas. Aliás, se fosse beduída, a bombacha teria aparecido já com o nascimento do gaúcho, e não um século mais tarde. No RS, a bombacha toma conta da campanha em pouco mais de vinte anos. Sim, porque começa a ser usada na Guerra do Paraguai, ou um pouquinho antes.

  Gaúcho atual e Prenda Tradicionalista
 
E na revolução de 1893, já não aparece quase ninguém de chiripá e sim de bombachas, como se pode ver das inúmeras fotografias que ficaram daqueles episódios sangrentos de nossa história. Foi então que se cantou a seguinte quadrinha:
   
  “A gaita matou a viola,
o fosf’re matou o isqueiro,
a bombacha,
o chiripá e a moda – o uso campeiro...”
 

Tudo, vale dizer, certíssimo: a Guerra do Paraguai foi o autêntico “divortium aquarum” do folclore rio-grandense. Surge com ela ou imediatamente após, a bombacha, a gaita, o fósforo, o aramado, a valsa, o truco, o regionalismo.

Morrem o chiripá, a viola, o gaudério, o ciclo dos fandangos, o classicismo literário etc...

A bombacha entrou no Rio Grande vinda da Banda Oriental e foi primeiro usada pelos pobres. À essa época, os estancieiros preferiam o “culotte” francês, que era mais “chic” – Deus o livre! – dançar em baile de respeito vestindo bombachas: o gaúcho viajava a cavalo léguas e léguas, trajando bombachas e trazendo as calças “cola-fina” cuidadosamente dobradas debaixo dos pelegos, para frisas. Mas na revolução de 93 já os caudilhos, quase todos estancieiros, usavam largamente as bombachas. Inclusive o Dr. Ângelo Dourado, baiano médico das forças de Gumercindo Saraiva, usava bombachas normalmente.

Deixou de usa-las uma vez, quando o peito do pé inflamou e o peso das bombachas fazia o ferimento doer. Então, conta ele próprio Aparício Saraiva fez com que ele trocasse as bombachas pelo chiripá – peça que o médico baiano não conhecia! – e o mesmo Aparício colocou a velha prenda no Dr. Dourado. Já em 1905 as bombachas são largamente usadas. Há uma fotografia desse ano, onde aparece o avô do autor destas notas, fazendeiro em Uruguaiana, Antônio Machado da Silva, usando bombachas brancas com enfeites laterais de favos de mel.

Aqui se esclarece outra dúvida: os botões laterais de enfeite de bombachas são invenção “moderna”, olhada de soslaio pelos verdadeiros gaúchos. Claro, sempre houve os exibidos, os faceiros e os narcisistas. Há documentos de casos especiais, de gaúchos até com libras de ouro , bolivianos de prata ou espelhidos dos lados das bombachas, mas foram exceções criticadas pelos próprios companheiros, seus contemporâneos.

Quando veste bombacha, nenhum gaúcho anda sem mangas de camisa, salvo entre seus iguais, na intimidade. Se não, pelo menos, usa colete. Melhorando, o casaco, em ambiente e com pessoas de mais distinção. E se é pobre, veste a blusa campeira, fofa na cintura e nos punhos, quase sempre do mesmo pano da bombacha. O casaco, muitas vezes era preto, usado em contraste com a bombacha branca. Esta era bem larga na fronteira e mais estreita, quase calça, na serra, mas sempre abotoada no tornozelo.

Os panos para as bombachas variavam, como variam até hoje. Se o gaúcho era mais rico, mandava o alfaiate fazer um conjunto de casemira, com bombachas e casaco. As cores, nesse caso eram comumente o azul marinho e o marrom. Preto, só em caso de luto. Bombachas mais simples eram feitas de brim, muitas vezes listado, que a indicada chamava couro de lagarto. As vezes a costureira fazia a bombacha e a camisa do mesmo brim, mas neste caso era uma camisa com bolsos a altura do peito. E era camisa mesmo enfiada para dentro das bombachas. Ou então, a velha blusa campeira, chamada simplesmente “campeira”, que sempre andou junto com a bombacha.

As esporas nazarenas rareiam. Usam-se mais chilenas, pequenas e de para os ricos, grandes e de ferro, para os despilchados. As botas são sempre as de sapataria, pretas e marrons e ainda muitas sussilhonas, sobretudo na revolução de 93. Na serra usam-se as chamadas “botas lajeanas”, com ou sem gaitinhas e quase sempre de cor marrom ou preta, com bolas laterais. Há também, botas de lona.

A propósito, o lavrador do Rio Grande sempre usou calçado especial: ou o tamanco açoriano, ou o “tamango”, campeiro, sapato grosseiro feito pelo próprio portador, de couro cru, pedaço de carona e até pelego, costurado muitas vezes com tentos e arame de quincha.

As bombachas são largas na fronteira e estreitas na serra e médias no planalto, quase sempre com favos de mel, também chamados ninhos ou favos de abelhas. À cintura, o fronteirista usa faixa preta, mas raramente vermelha ou azul-clara, de lã grossa, larga de quase palmo. O serrano e o planaltense não usam a faixa. E a guaiaca serrana. Aquela tem uma fivela ou duas, bolsa para o “cebola”, ao lódão esquerdo, bolsa maior às costas, para as “pelegas” meio-coldre, do lado de laçar, uma bolsinha menor para os “nicles”. E gente da fronteira tem medo de usar guaiaca peluda (lontra, gato-do-mato) porque diz que da azar. A Guaiaca serrana é muitas vezes peluda, o coldre é interiço e há um lugar especial do lado esquerdo do homem, para a faca, que o serrano usa pendurada aí. Ao contrário do fronteirista, que usa atravessada às costas, como os antigos índios minuanos.

A camisa é de algodão, morim, tricolina, pelúcia e até de brim.

Tudo de uma cor só – no máximo, de pano riscado, sobretudo umas camisas mui pobres, feitas de pano de saco de farinha ou açúcar.

Por cima – perto de senhoras ou homens de mais respeito – o colete, a campeira ou o casaco.O lenço de pescoço é atado por um nó, de oito maneiras diferentes, pelo menos incluindo duas de origem política: o nó farroupilha (1835/1845) e o nó federalista (1893/1896).

Também as cores dos lenços, além das políticas tradicionais (branco e vermelho) são acrescidas com mais uma tentativa política, que não pegou: o lenço verde, tentado pelos positivistas, seguidores do presidente Júlio de Castilhos, em 1893. E há lenços de fundo branco e com barra em xadrez vermelho e de fundo vermelho com barras em xadrez branco, a proclamarem a neutralidade política do usuário.

E lenços azuis celestes mais raros. O lenço à cabeça desaparece, o mesmo acontecendo com o chapéu de aba curta e copa alta. Agora, o que se usa é o chapéu de copa baixa e abas largas, uma e outra variando na forma ao gosto individual do gaúcho.Existem copas pontudas, tipo escoteiro, ainda hoje comuns em São Borja. Copas afundadas dos lados, ou transversalmente em cima.

As abas são usadas caídas em toda a roda do chapéu. Ou levantadas a frente, bem tapeadas, como “pra beijar santo em parede”. Levantadas atrás e a frente, ou só atrás ou abas muito largas, levantadas na frente. Para cima, dos dois lados, tipicamente do gaúcho serrano, que muitos por desavisados, pensam ser imitação do chapéu do “cow-boy”.

Enfim, existe gosto para tudo. E surge a boina, vasca, como as alpargatas, ainda hoje de uso e comum na fronteira.

Além do bichará, do pala de algodão ou de seda e do poncho, surgem mais duas peças importantes: o pala-poncho ou poncho-pala e a capa campeira.

Um destaque especial para o caso de luto: de um a seis meses o luto é fechado, isto é, completo, pela mulher, pelo marido, filhos ou pais da pessoa morta. A mulher usa meias pretas, severo vestido preto e um pano a cabeça. O homem usa botas pretas, bombachas pretas, camisa peta, lenço preto, casaco preto, chapéu preto e não faz a barba durante o período de luto, geralmente.

Quando se iniciou o Movimento Tradicionalista, com a fundação do “35’ Centro de Tradições Gaúchas, em Porto Alegre, a 24 de abril de 1948, os rapazes quando, algum tempo depois, filiou-se a primeira moça – sentiram a necessidade de criar um traje feminino que fizesse “pendant” com a brilhante indumentária masculina. E assim, consultando fotos antigas das próprias famílias e também inspirados no ‘traje de china” das tradicionalistas uruguaianas e até mesmo – forçoso é reconhecer – no vestido “caipira”, que eles combatiam, criaram o hoje famoso “vestido de prenda”, dentro dos pressupostos válidos da indumentária feminina mais simples do Rio Grande – a de chita – ao fim do século passado e começos deste. Apesar de ser uma criação tradicionalista, o vestido de prenda conservou a padronagem e a sobriedade do vestido padrão da mulher gaúcha.

E é exatamente na indumentária relativa a este período - de 1870 até o presente – que os tradicionalistas cometem os maiores desatinos.

Já as esporas dos conjuntos de danças muitas vezes aparecem fantasiadas, para não ferir ou cortar as botas. E as botas de garrão às vezes são usadas com bombachas, o que é um erro, e para durarem mais, são com solados feitos por sapateiros! Pouquíssimos tradicionalistas usam as botas russilhonas. Mas é nos colégios que os piores absurdos são cometidos: chapéus e botas de “Rov Rogers”, ou botas de borracha, aparecem a dois por três, com a cumplicidade ingênua das professoras, muitas vezes por dificuldades econômicas.

E que dizer das bombachas? Ainda hoje, depois de quase trinta anos, ainda aparecem tradicionalistas usando bombachas enfeitadas com os botões sobre favos-de-mel, reproduzindo as inicias ou o nome inteiro do portador. E o pior agora estão usando em vez dos favos-de-mel, umas franjinhas absolutamente inusitadas.

A correta bombacha é de brim ou mesmo casemira, lisa ou riscada, de cós largo, sem alças para a cinta “cola-fina” e só tem dois bolsos grandes, laterais. Saiu disso, tudo o mais é bobagem. Bombachas brancas e claras, para ocasiões festivas, sóbrias e escuras, para viagens ou trabalho. Mas pretas, só em caso de luto. E agora criou-se entre os tradicionalistas uma verdadeiras “legião do Zorro”, de botas, bombachas e camisas pretas, contrastando com as faixas coloridas, os lenços brancos e maragatos. Quer dizer: parecem estar de luto, mas quebram este com o branco ou vermelho. E ademais, usam esse traje para festas. Estes tradicionalistas não se dão conta de que assim estão desservindo a tradição do Rio Grande. Gente importante, que devia dar o bom exemplo, são os primeiros a errar. Inclusive líderes tradicionalistas.

À cintura, todos os tipos de faixas que possam encontrar: uruguaias, argentinas (correntinas, pampas, santiaquenhas) paraguaias, chilenas... menos faixas brasileiras. E gente municípios onde o gaúcho não usa faixa, tradicionalmente, está “ensinando” o gaúcho autêntico a descaracterizar a sau indumentária.

As guaiacas castelhanas, recamadas de moedas e com vistosa “rastra” andam aí na cintura dos líderes e “professores” de tradicionalismo. Esses tradicionalistas estão entregando aos castelhanos, de graça, o que seus avós defenderam durante quase duzentos anos: a nossa opção e o nosso direito de ser brasileiros. Eles, ao contrário, fazem questão de se passar por uruguaios e argentinos, abandonando aquilo que nos faz iguais a nós mesmos, e ainda assim, dentro de nossas fronteiras, com diferenças regionais. Esquecem a velha lição de que o regional é universal e que escrever sobre o seu pátio estará escrevendo para o mundo.

As camisas, por qualquer descuido, estão aparecendo em vistosa padronagem xadrez e até mesmo em seda.

Há centros de tradições gaúchas criando lenços próprios, verdes ou amarelos, muitas vezes fazendo par com a faixa da mesma cor. Já houve, inclusive, centros que faziam lenços tricolores, com os padrões sagrados do Rio Grande.

Isso não é tradição. Isso é palhaçada, fantasia, carnaval, patacoada. Depois, quando qualquer “cola-fina” ridiculariza o tradicionalismo – e nesses casso, com absoluta razão – esses maus tradicionalistas são os primeiros a reclamar resposta em jornal, carta aberta e coisas do gênero.

A blusa campeira praticamente é ignorada pelos tradicionalistas, que vão a bailes e festas em mangas de camisa e de xerenga à cintura. Casaco? Raramente. Felizmente o colete ainda não se perdeu nessa barafunda.

Os barbicachos aparecem em plástico brilhante, ou então mesmo quando traçados em couro cru, com tantos penduricalhos (miniaturas de boleadeiras, laços, rebenques, estribos, serigote, corona, pipa d’água e égua com cria) que mais parece uma árvore de natal. Os tiradores de muitos tradicionalistas seguem o mesmo caminho: solo brilhante, nonato salino ou então tiradores com pinturas de cenas campeiras, miniaturas de tarecos, etc. E o verdadeiro tirador é uma rude peça para agüentar a fricção do laço e proteger o homem em certos trabalhos de mangueira e brete. Curto e com flecos muito compridos, na Serra, com dois ou três palmos, até. De pontas arredondadas, no Planalto. Com ou sem flecos e quase arrastando no chão, em Bagé. De bordas retas e com flecos de meio palmo, na Fronteira. Isso é tirador gaúcho. Sem enfeites, feito para o trabalho, as vezes um coraçãozinho do mesmo couro tapando o furo e bala que matou o pardo ou o capicho.

 
Fonte texto / Imagens adaptadas de: Antonio Augusto Fagundes - Indumentária Gaúcha.

 ##################################################################################

 
 Traje Gaúcho - 1820 / 1965
 
O período histórico dominado por um novo tipo de chiripá que substitui o anterior de forma de saia. Este obviamente não era adequado à equitação, mas sim a típica indumentária do pedestre, feita para o homem que anda a pé. Já o novo chiripá, em forma de grande fralda passada por entre as pernas, adapta-se bem no ato de cavalgar e essa é certamente a explicação para o seu aparecimento entre os gaúchos de três pátrias (Brasil – Uruguai – Argentina). Assim, fique desde já claro que o chiripá primitivo, o de saia, era indígena. Já o novo chiripá, de fralda, é inteiramente gauchesco. É um traje essencialmente funcional, nem muito curto nem muito comprido, tendo o joelho por limite, ao cobri-lo. As esporas do complexo da indumentária dominada pelo chiripá que chamamos “farroupilha”, não só para diferencia-lo do anterior mas porque foi a peça mais usada pelos farrapos (1835/1845), são as chinelas.

  Gaúcho Farroupilha e Mulher Gaúcha
 
As nazarenas e os novos tipos inventados pelos ferreiros da campanha. As botas são ainda a bota forte, comum, a bota russilhona e a bota de garrão, inteira ou de meio-pé. As longas ceroulas são enfiadas no cano da bota ou, quando por fora, mostram nas extremidades cirvos, rendas e franjas. À cintura, faixa preta e guaiaca, de uma ou duas fivelas. Camisa sem botões, de gola e mangas largas. Jaleco, de lã ou mesmo veludo, e às vezes a jaqueta, com gola e manga de casaco, terminando na cintura, fechada à frente por grandes botões ou moedas. Ao pescoço, lenço de seda, já nas cores mais populares – o branco e o vermelho. Mas muitas vezes em outras cores e com padronagem enxadrezada. Em caso de luto – preto. Com luto aliviado, preto com “petit-pois”, carijó ou xadrez de preto e branco. Mas isso em caso de luto. Aos ombros, pala, bichará ou poncho. À cabeça, a fita dos índios ou o lenço amarrado à pirata e, se for o caso, chapéu de feltro com aba rasteira e copa alta, ou chapéu de palha, sempre presos por barbicacho. Os cabelos do gaúcho, durante muito tempo, foram compridos, tipo índio. Havia quem os trançasse atando as pontas com fitas, o mesmo que as chinas. Até na Guerra do Paraguai (1865/1870) aparece gaúcho de trança e a única fotografia de um gaúcho autentico usando chiripá, no começo deste século, em poder do autos destas notas, mostra o homem com duas pequenas tranças laterais na comprida melena moura.
 
A mulher nesta época (1820/1870) popularizou um tipo de indumentária na base da saia e do casaquinho, este com discretos enfeites de rendas. As pernas femininas sempre cobertas por meias salvo na intimidade do lar – e o cabelo solto ou trançado para as moças, e preso, em coque, para as senhoras. Sapatos fechados e discretos. Jóias? Um simples camafeu, ou broche, fechando a gola do casaquinho. Ao pescoço, muitas vezes, o fichú, pequeno triângulo de seda, crochê, etc., com as pontas cruzadas fechadas por um broche. Mais rico ou mais pobre, esse foi o traje padrão da mulher do Rio Grande do Sul nessa época. Simples, não é?

Para os tradicionalistas desavisados não o entendem assim. No traje masculino, transformam a sóbria ceroula de crivo em festival de rendas e campânulas que fariam corar de inveja uma rumbeira cubana. Sabendo que no passado alguns gaúchos usavam ceroulas de crivo, uma sobre a outra, gostam de costurar dois rendados – e até mais! – nas extremidades dessa peça e ainda alargam desmesuradamente a boca das ceroulas para que as rendas se sacudam bastante na hora de dançar...

E o chiripá farroupilha? Coitado, foi debruado em seda multicolorida – até com as cores do Rio Grande – e bordado de florezinhas multicolores. E encurtado até parecer uma tanga. Ou então, colocado de viés, para afunilar bem nas penas. Claro, nós sabemos que os “compadritos” periféricos de Montevidéu usaram até chalé de china como chiripá, e que os paraguaios de Estigarribia – descritos pelo Conde d’Eu – saquearam as residências familiares em Uruguaiana e transformaram em chiripá o chale das senhoras uruguaienses. E também que os Podestá, no circo, e Carlos Gardel, no palco, coloriram o chiripá dos “compadritos” para efeitos cênicos. Mas o tradicionalista não têm esse direito. Por definição, ele deve ser o guardião da pureza daquilo que é tradicional entre nós. E o chiripá tradicional era de merino, ou então feito de um pala. No mais. Discreto e maculo.

Também na composição deste traje estão aparecendo as coloridas faixas argentinas e os “tiradores’ com "rastra”... e até relógio de pulso, em anacronismo absurdo. E as cores continuam o festival carnavalesco. Imagine-se o que pensaria um gaúcho farroupilha verdadeiro ao ver essa autentica caricatura!

Na mulher, os erros mais comuns são a pintura exagerada, as bugigangas baratas que fazem o papel de jóias, o relógio, a pulseira, o sapato moderninho, as pernas nuas e um comportamento freqüentemente estouvado e espalhafatoso, contrastando com o recato da verdadeira mulher gaúcha, sem prejuízo da sua graça natural.
 
Fonte texto / Imagens adaptadas de: Antonio Augusto Fagundes - Indumentária Gaúcha. 

############################################################################################

 

 
Traje Gaúcho - 1750 / 1820
 
Então, de peças da indumentária ibérica, de peças da indumentária indígena e de outras tantas peças de sua própria invenção, o gaúcho do RS foi constituindo sua própria indumentária. O homem que empreitava as grandes arreadas de gado e as comandava pessoalmente, verdadeiro senhor de baraço e cutelo de suas gentes e primeiro caudilho rio-grandense, tinha mais dinheiro e se vestia melhor que os de mias. Foi ele também o primeiro estancieiro, fixando seus gados em rincões naturais e marcando e assinalando a sua fazenda. Trajava basicamente à européia, mas aos poucos foi introduzindo aportes ameríndios e próprios ao complexo de sua indumentária. Passou a usar também a bota de garrão de potro, invenção gauchesca típica. Igualmente o cinturão-guaiaca (“guaiaca” = bolsa, em quíchua), o lenço de pescoço, o pala indígena, a tira de pano prendendo os cabelos, o chapéu de pança de burro etc...

Patrão das Vacarias e Estancieira Gaúcha
 
Um bom retrato desse homem foi pintado pelo francês Jean Baptiste Debret, provavelmente sobre informações recebidas de São Borja, onde o grande artista não esteve. A mulher deste rico estancieiro, a qual também foi pintada por Debret, usava botinas fechadas, meias brancas ou de cor, longos vestidos de seda ou veludo, mantilha, xale ou sobrepeliz, grande travessa prendendo os cabelos e o infaltável leque.

Pois bem: os tradicionalistas quando pretendem reeditar esta indumentária, costumam cometer vários erros. O mais primário de todos é imaginar que mulher de travessa e mantilha tem que ser castelhana, ignorando que tais peças são tão espanholas como portuguesas. Depois, juntam ao traje dessa época, jóias e relógios modernos em anacronismo gritante. Ademais, por comodismo, criaram para traje masculino uma esdrúxula peça única, híbrida de bragas e ceroulas de crivo: fazem umas bragas, até os joelhos e daí para baixo costuram um palmo de perna de ceroulas, ao invés de usarem as bragas por cima das ceroulas de crivo. Com o truque empregado o resultado perde a aparência de bragas sobre ceroulas, porque a peça assim resultante não se estreita nos joelhos, como as bragas autênticas, que são amarradas à perna. E mesmo quando pretendem usar bragas sobre ceroulas, desconhecem as verdadeiras dimensões da peça, fazendo bragas ridiculamente curtas, a meia-coxa. Também costumam colocar à cintura umas estranhas faixas coloridas, com uma ponta pendente que nada tem haver com a tradição gaúcha. Ou ainda descuram de usar o jaleco e a jaqueta, ou o chapéu da época desse traje, com copa alta e abas curtas. E esquecem o pala. Ou usam à cintura guaiacas castelhanas, retovadas de moedas e “botones”, com vistosas “rastras” bem à frente.
 
Mas o pior de tudo é o colorido carnavalesco que empregam na feitura das bragas e da jaqueta, afeminando um tipo humano que foi sempre muito másculo até no seu ingênuo narcisismo, fruto da necessidade primitiva de se luzir entre seus pares. Aliás, não é por acaso que entre os gaúchos o homem tem aparência mais bizarra que a mulher, como o galo dono do terreiro, de chapéu tapeado, pala atirado para trás e tinindo as esporas... Mas daí a usar bragas amarelo-canário, violeta, bordô. Grená e rosa-choque, vai um abismo de distância. Em roupa gauchesca, como em tudo, discreção e comedimento antes de mais nada. O peão de vacarias, saído de tudo aquilo que sobrava, em termos humanos, da incipiente organização urbana da época – desertores do exército e da marinha, foragidos da justiça, renegados das tolderias trânsfugas missioneiros, brancos índios, negros e mestiços de toda a laia – não devota maiores cuidados às roupas. Seu traje se destinava a proteger o usuário e a não atrapalhar sua atividade precípua – cavalgar e caçar o gado. Freqüentemente, este gaúcho só usava dois palas: um enrolado como saia, da cintura aos joelhos, e o outro enfiado pela cabeça.
 Peão das Vacarias e China das Vacarias
 
As demais peça dependiam ou de engenho pessoal ou de dinheiro. As botas mais comuns eram as de garrão, que o próprio gaúcho sacava de vacas, burros e éguas raramente do potro que lhes deu o nome. Essas botas eram lonqueadas, ou perdiam o pêlo com o uso. Mas às vezes o pelo era resguardado e até mesmo se matavam mais de um animal para conseguir um par de botas manchadas, iguais. Em uso, as botas de garrão não duravam mais de dois meses.Normalmente, eram feitas com couro das pernas traseiras do animal, que dão botas maiores. Aquelas tiradas das patas dianteiras muitas vezes eram cortadas na ponta e no calcanhar, ficando o usuário com os dedos e o calcanhar de fora. Acima da barriga da perna, o homem ajustava essas botas, por meio de tentos, ou tranças. E houve também chamadas “botas-de-gato”, mais raras, feitas com o couro de gato-do-mato ou jaguatirica, tirando inteiro, com cabeça e tudo. Os dedos do pé do homem apareciam pela boca do bicho. Claro está que houve muito peão usando botas fortes, de sapateiro, por pacholice ou ostentação, mas tais casos foram compreensivelmente raros.
 
Quanto às rosetas, as esporas mais comuns eram as nazarenas e as chilenas, as primeiras proximamente européias, e as segundas americanas. As nazarenas devem o nome aos seus espinhos pontudos que lembram os cravos que martirizaram Nosso Senhor. E as hipertrofiadas chilenas devem o nome a semelhança com as tilintastes esporas do “huaso” do Chile. E aos poucos os ferreiros que montavam suas forjas por aqui começaram a criar novos tipos de esporas com garfos enormes, que chegavam quase aos dedos do pé.O peão das vacarias, por pobre e desinteressado, não era de muito luxo. Só usava ceroulas de crivo nas aglomerações urbanas.

No mais, andava de pernas nuas, como os índios. Seu chiripá já foi descrito: tinha a forma de saia e era meio aberto à frente, para facilitar a equitação e mesmo o caminhar do homem. Em pouco tempo esse chiripá assumia uma cor indistinta, de múgria – cor de esfregão. À cintura, faixa larga, negra, ou cinturão de bolsas, tipo guaiaca, adaptado para levar moedas, palhas e fumo e mais tarde cédulas, relógio e até pistola. Aliás, ainda hoje, a bolsa com tirante a meia-espalda, que os leiteiros costumam usar na fronteira-oeste, é chamada “guaiaca”.Ainda à cintura, as infaltáveis armas desse homem: as boleadeiras, a faca flamenga ou adaga e, mais raramente, o facão. Este era tão usado nos arreios que ganhou, por vezes, o nome de “facão caroneiro”. E sempre à mão a lança – de peleia ou de trabalho. Esta última ostentava uma lâmina em forma de meia-lua e se chamava “desjarretador” ou “garrocha”. Em ocasiões especiais o homem usava dois e mais pares de boleadeiras, à cintura e nos arreios.

Camisa, quando o peão contava com uma, era de algodão branco ou riscado, sem botões, apenas com cadarços nos punhos, com gola imensa e mangas largas. Pala, não faltava, comumente, o de lã chamado “bichará” – em cores naturais, e mais raramente o de algodão e o de seda, que aos poucos vão aparecendo. Logo também surge o poncho, redondo, de cor azul e forrado de baeta encarnada, provavelmente a partir das capas militares da época.

Embora os nomes “pala” e “poncho” se confundam com freqüência, usados um e outro para a mesma peça de indumentária, o certo é que o primeiro é proximamente indígena e o segundo inteiramente gauchesco, isto é, não veio da Europa nem da América indígena. E hoje os gaúchos rio-grandenses fazem perfeita distinção entre pala, poncho, bichará, pala-poncho e capa. Senão, veja-se:
 
Pala: de lã ou algodão, quando protege contra o frio, ou de seda, quando protege contra o calor. É sempre retangular, com franjas nos quatro lados. Freqüentemente ostenta listas retas, paralelas aos lados maiores do retângulo. A gola do pala é um simples talho, por onde o homem enfia o pescoço.

Poncho: de lã grossa, invariavelmente. Quase sempre é azul escuro, forrado de baeta colorada, mas existem também ponchos negros, com forro de baeta amarelada com xadrez vede e ainda ponchos de cor cinza, com forro de baeta encarnada. O poncho tem a forma circular ou ovalada. Como o pala, é produzido pela indústria. O poncho só protege contra o frio e a chuva. Não tem franjas, nem listas. A gola é alta, abotoada e há um peitilho na frente do poncho. A propósito, cumpre assinalar e presença de ponchos de borracha e, mais recentemente, de napa ou plástico, entre nós.

Bichará: é um pala feito em teares manuais, de tecelagem folclórica, com a lã natural de ovelha, quase sempre nas cores naturais dessa lã. Raramente com cores químicas. O bichará é feito de dois panos, tecidos um de cada vez, e que fora do tear são costurados um ao outro deixando apenas uma abertura ao centro para a cabeça do homem. Ultimamente surgiram bicharás com gola de poncho, em lã e até de peles. O bichará só protege contra o frio.

Pala-poncho: também chamado de poncho-pala, é um pala maior, de lã industrializada, de forma semi-retangular com os cantos levemente arredondados, e com franjas ao redor. O pala-poncho também só protege contra o frio. Não se trata de invenção moderna, pois já existia no fim do século passado.

Capa: dos dois grandes abrigos usados pelo homem em todas as culturas conhecidas, um tem um talho no meio, por onde o portador enfia a cabeça (o pala) e o outro o homem simplesmente enrola em torno de si (o manto). A capa se filia à corrente dos mantos e entre nós foi introduzida, ao que consta, no começo do século vinte, a partir da famosa capa espanhola, militar ou coimbrã. A nossa capa campeira, também chamada colonial, sempre é de lã escura, forrada só até o meio por baeta chara, aberta em toda a frente, onde tem botões de cima abaixo, e tendo nos dois lódãos aberturas com um botão por onde o homem pode tirar os braços. A capa tem gola como o poncho, que poder ser levantada para proteger as orelhas. É sempre de confecção industrial e protege contra o frio e contra a chuva. A cor mais comum nas capas é o negro, mas há capas colegiais em azul escuro e até em cor marrom.

Mas voltando ao peão das vacarias: à cabeça, a fita dos índios prendendo os cabelos que os platinos chama “vincha”, palavra estranha ao nosso linguajar, e que os modernos “hippies” chamam “fita apache”, e também o lenço Omo touca, atado à nuca. Chapéu, quando usava, era de palha (mais comum), de feltro (mais raro) e talvez o de couro cru, chamado de “pança de burro”, feito com um retalho circular do couro da barriga do muar, moldado na cabeça de um palanque. Não se conhecem, ainda, documentos a respeito do uso do chapéu de pança-de-burro entre os gaúchos rio-grandenses, mas é presumível tenha sido usado tanto na Banda Oriental como Rio Grande, face os costumes comuns da época.

O chapéu, qualquer que fosse o feitio, era preso com barbicacho sob o queixo ou nariz. Esse barbicacho era normalmente traçado em delicados tentos de couro cru, tirados de lonca ou então eram simples cordões de seda, torcidas, terminando em borda que caía para o lado direito. Mais raramente, de sola e fivela.

Ainda nessa época aparece o “cingidor”, que foi como Nicolau Dreys chamou o nosso tirador. A mulher desse homem como é natural supor, vestia pobremente: nada mais que uma saia comprida, rodada, e uma blusa. A saia era sempre de cor pesada, tendendo para o escuro, e a blusa ou era branca ou esbranquiçada com uso. Pés e pernas descobertas, o mais das vezes. Branca, mestiça ou índia, a mulher era raridade nas vacarias e nos rancheiros, muitas vezes disputada de adaga na mão. Não precisava se enfeitar muito para ser pretendida... Por baixo da sai, as calças femininas da época, tipo bombanchinhas.

Como os trajes mais ricos, esses foram usados desde o nascer do gaúcho até 1820, aproximadamente. Deles ficaram para nós descrições preciosas de Nicolau Drys e Saint Hilaire e pinturas de Debret. No Uruguai, Emeric Vidal e Juan Manuel Blanes deixaram belas aquarelas e óleos documentando essa época.

Os erros mais comuns, cometidos pelos tradicionalistas contra essa indumentária, dizem respeito, como sempre, às cores aberrantes, sobretudo no chiripá, que foi a essa época uma sofrida peça destinada a mal cobrir as vergonhas do homem e que agora aparece em verde-exorcista, grená-hemptise e quejandos. Ademais, esse chiripá, que era uma saia enrolada da cintura aos joelhos, com abertura de cima abaixo, bem na frente, começa agora a ser usado com a abertura ao lado, o que lhe dá uma aparência "hippie”. E seu tamanho foi reduzido a um mínimo, transformando em autêntico tapa-rabo de luxo.

Mas não param aí, os erros. Os tradicionalistas, desinformados e ingênuos, e as “vedettes” do tradicionalismo, colocam à cintura uma faixa branca, mais enfeitada que pilcha de castelhano, com larga ponta pendente. Pala não gostam de usar, para ficarem bem soltos... Se o chapéu de palha simplesmente não aparece, que dirá do pança-de-burro?

E volta a aparecer a importuna “rastra” castelhana, que os narcisos crioulos adoram tanto a ponto de inventar uma “rastra” de couro trançado!

A bota de garrão de potro, ideal para completar esse traje, quando aparece entre os tradicionalistas... é com as bombachas!
 
Fonte texto / Imagens adaptadas de:  Antonio Augusto Fagundes - Indumentária Gaúcha.
 

                                                                                     
                                                                    
                                                                                             ARTEGA Bolicho Oficial Mundo Gaúcho

A Artega - O Armazém do Gaúcho é especializada em artigos gauchescos, pilcha (indumentária gaúcha), selaria,  churrasco, chimarrão, além de cozinha e decoração.
Comprometida com a cultura gaúcha, proporciona aos seus clientes, além de qualidade e variedade de produtos, um local agradável para passear com toda família e saborear um amargo, pois mate quente e cara alegre não faltam para nossos clientes e amigos.
  Site Map